quinta-feira, 16 de junho de 2011

Meu Labirinto


Ao longo das minhas tarefas diárias, de alguns anos já, o livro do Rubem Braga esteve ao lado, na estante, sempre à mão. Às vezes coberto por um pano, meu gato tem o péssimo hábito de se deitar sobre as 200 Crônicas Escolhidas; e eventualmente sujá-las todas. Tantas outras vezes; ele permaneceu aberto na escrivaninha por causa de uma leitura interrompida de modo que pudesse retomar noutra instante.

A verdade é que até hoje não li o livro inteiro. Não sigo o índice cronológico proposto. Deste o começo, minha leitura se fez fragmentada, montando combinações diversas, tomando caminhos inusitados. Assim, resultou que, para o bem ou para o mal, perdi-me nesse labirinto agradável. Digo agradável porque, ao contrário de um labirinto normal em que só se pensa na saída; neste, eu fico um pouco mais, sento num canto qualquer para escutar as boas histórias do Braga e reluto para sair.

Enquanto o Velho Narrador lembra sua Cachoeiro do Itapemirim, sua infância, seus amigos e amores; minha leitura se baseia no esquecimento. Leio, leio e leio, passa o tempo e esqueço. Geralmente, conheço o enredo, consigo redesenhar as cenas; esqueço de fato a forma delicada de descrever certas situações. Pego meu exemplar e relembro, com a sensação de que é melhor do que eu imaginava.

Mas uma crônica me escapa. Ela é meu graal, minha procura eterna, meu caderninho azul (porque não sei se quero encontrá-la). Li apenas duas vezes há anos atrás, deste de então, busco-lhe aflitamente. Passo pelo índice e se qualquer palavra relampeja na memória, corro ávido para as paginas; então, descubro que não era aquela crônica. Não se trata da moça, em minha mente, falando com o rapaz na ponte; na verdade, vejo uma borboleta amarela, o Bebu na hora neutra; um casal de amigos; a gatinha Biribuva (talvez por ela que meu gato deite sobre o livro); a viajante... Enfim, o labirinto se amplia e a vontade de ficar também.


P.s. Texto escrito no dia 18/02/2011